BOI
No
Brasil, os bois são criados soltos. Provavelmente, essa forma de criação
é menos terrível que a de países frios do Cone Sul e da Europa, onde os
invernos matam o pasto e fazem com que os animais fiquem fechados em áreas
apertadas, comendo só ração. Isso não quer dizer que seja o melhor dos
mundos. Os animais muitas vezes passam fome, vivem cheios de parasitas e
apanham copiosamente. “O manejo no Brasil é muito bruto”, diz o etólogo
Mateus Paranhos da Costa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de
Jaboticabal, especialista no assunto.
Não
existe aqui no Brasil a produção de vitela – carne muito branca e
macia de bezerros mantidos em jaulas superapertadas para evitar que se
movimentem. Para acentuar a brancura da carne, os criadores não permitem
que o bezerro coma grama ou grãos, só leite – a dieta tem que ser
pobre em ferro e em outros nutrientes, forçando uma anemia no animal. Com
isso, torna-se necessário o consumo de antibióticos, para diminuir o
risco de infecções do animal desnutrido. “A vitela deveria ser
proibida no mundo inteiro”, afirma o agrônomo e etólogo Luiz Carlos
Pinheiro Machado Filho, especialista em técnicas de manejo da
Universidade Federal de Santa Catarina.
Para
matar um boi, primeiro se dá um disparo na testa com uma pistola de ar
comprimido. O tiro deixa o animal desacordado por alguns minutos. Ele então
é erguido por uma argola na pata traseira e outro funcionário corta sua
garganta. “O animal tem que ser sangrado vivo, para que o sangue seja
bombeado para fora do corpo, evitando a proliferação de
microorganismos”, diz Ari Ajzenstein, fiscal do Serviço de Inspeção
Federal (SIF), que zela para que as regras de higiene e de bons tratos no
abate sejam cumpridas.
Em
1997, a ativista de direitos dos animais americana Gail Eisnitz escreveu o
bombástico livro Slaughterhouse (“Matadouro”, inédito no Brasil), no
qual acusava os matadouros de sangrar muitos animais ainda conscientes.
“Não vou dizer que isso não acontece no Brasil, mas não é freqüente”,
afirma Mateus Paranhos.
O
abate a marretadas está proibido no país, o que não quer dizer que não
aconteça – já que quase 50% dos abates são clandestinos e, portanto,
sem fiscalização. O problema da marretada é que não é fácil acertar
o boi com o primeiro golpe. Muitas vezes, são necessários dezenas para
desacordá-lo.
GALINHAS
Essas quase sempre levam uma vida miserável. Vivem espremidas numa gaiola
do tamanho delas. As luzes ficam acesas até 18 horas por dia – assim
elas não dormem e comem mais (isso acontece principalmente com as que
produzem ovos). Seus bicos são cortados para que não matem umas às
outras e para evitar que elas escolham que parte da ração querem comer
– caso contrário, ciscariam apenas os grãos de seu agrado e deixariam
de lado alimentos que servem para que engordem rápido.
A
morte é rápida. As galinhas ficam presas numa esteira rolante que passa
sob um eletrodo. O choque desacorda a ave e, em seguida, uma lâmina corta
seu pescoço. O esquema é industrial. Hoje, nos Estados Unidos, são
abatidas, em um dia, tantas aves quanto a indústria levava um ano para
matar em 1930. Nas granjas de ovos, pintinhos machos são sacrificados
numa espécie de liquidificador gigante. Parece horrível, mas é a mais
indolor das mortes descritas aqui.