por Marco Túlio Pires
A publicação foi
aclamada por renomados
periódicos científicos como
Science, Nature e
New Scientist como um
dos principais documentos na
defesa da pesquisa animal.
“Relatamos casos de
profissionais que abandonaram
carreiras de sucesso porque não
queriam ver suas esposas,
parentes e filhos em perigo”,
escreveu Conn em uma coluna do
jornal americano Washington
Post em 2008. Orientado
pelos colegas e advogados, o
endocrinologista prefere não
mostrar o rosto visando à
própria segurança.
Conn é também o diretor de
pesquisa da Universidade de
Saúde e Ciência do estado de
Oregon (EUA) e editor-chefe dos
periódicos científicos
Endocrine, Contemporary
Endocrinology e Reviews
in Endocrine and Metabolic
Disorders. Ele conversou
com o site de VEJA e disse que,
se os seres humanos vivem cada
vez mais e melhor, isso se deve
ao vasto conhecimento médico
acumulado por meio de pesquisas
com animais.
O
que nos dá o direito de submeter
outros seres vivos indefesos ao
sofrimento em pesquisas médicas?
Leis internacionais como o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsinki dizem que qualquer experimentação com humanos em pesquisa científica requer o pleno consentimento do indivíduo. É óbvio que os animais não podem "consentir" em ser usados, mas, como eles fogem da dor e do sofrimento na natureza, podemos inferir que eles evitariam situações em que são submetidos a elas. Por que não estender aos animais, ainda que por empatia, o mesmo princípio que protege os humanos?
Conceitos como os de consentimento e autonomia só fazem sentido dentro de um código moral que diz respeito aos homens, e não aos animais. Os animais não planejam significativamente o futuro. Eles não têm leis como as nossas. eles não tomam decisões coletivas e não fazem assembleias para resolver esta ou aquela questão. Com frequencia, eles se canibalizam no meio selvagem. Somos seres diferentes. Nossa obrigação com nossos vizinhos é respeitá-los como indivíduos e dar, a cada um, o direito de tomar suas próprias decisões, dentro dos limites estabelecidos pela sociedade. Nossa obrigação com os animais é fazer com que eles sejam devidamente cuidados, não sofram nem sintam dor - e não tratá-los como se fossem humanos, o que seria uma ficção. Nossas leis - dirigidas a outros seres humanos - devem garantir que esses procedimentos serão observados na pesquisa científica.
Há quem diga que o único motivo por que os cientistas se preocupam com o bem estar dos animais é porque o estresse e o sofrimento alteram o resultado das pesquisas. É assim que os cientistas agem?
Penso que os cientistas são pessoas extremamente morais. Em nosso laboratório, por exemplo, os cientistas tratam os animais como indivíduos muito especiais. Passamos muito tempo cuidando deles. Nós nos certificamos de que eles estão confortáveis e suas necessidades supridas. As instalações nas quais a maioria dos animais de pesquisas são acomodados são muito superiores às dos animais de estimação. O problema é partir do pressuposto de que pessoas e animais são a mesma coisa. Existem muitos aspectos que diferenciam os humanos dos outros animais. Por exemplo, os ativistas querem que os coelhos sejam colocados em gaiolas maiores. Acontece que quando um coelho é colocado em uma gaiola grande ele acredita que está em um campo aberto e que será presa fácil para um falcão ou algum pássaro grande que pode matá-lo. Por causa disso, ele entra em pânico. Eles gostam de gaiolas pequenas. O que quero dizer é que são feitos estudos para entender as necessidades desses animais. E com isso, tiramos vantagem do fato de que é possível manter coelhos em gaiolas pequenas deixando-os confortáveis. Repito: as necessidades de um coelho e as necessidades de uma pessoa são muito diferentes. Animais não são pessoas.
Quais valores pautam o seu trabalho, quando o senhor promove testes em animais?
Nós nos pautamos
por aquilo que, em inglês,
chamamos de "princípio dos três
Rs”: Reduce, Refine, Replace
[em português, reduzir, refinar
e substituir]. Reduzir significa
utilizar o menor número possível
de animais em determinado
estudo. Refinar significa
desenvolver experimentos de modo
que o ser menos evoluído da
cadeia evolutiva possa ser
utilizado. Se é possível
utilizar amebas, vamos usar
amebas — a mesma coisa para
insetos ou minhocas, por
exemplo. A minoria absoluta dos
experimentos, muito menos de 1%,
utiliza primatas. A maior parte
dos estudos é feita em roedores
e outras espécies não-primatas.
Substituir, finalmente,
significa não utilizar animais
sempre que possível. Nos Estados
Unidos e no Brasil, o conceito
dos três Rs é adotado por todos
os cientistas éticos como
requerimento e padrão para a
condução do trabalho.
Alguns cientistas, como o médico
Ray Greek, dizem que testes de
remédios em animais não têm
valor preditivo - que os
resultados válidos de verdade só
começam a ser obtidos na hora em
que as cobaias humanas entram na
experiência. O senhor concorda?
A verdade é que se você observar o que aconteceu com as doenças humanas, virtualmente todos os resultados positivos, que fizeram as pessoas viverem vidas mais longas e saudáveis, vieram de pesquisa animal. Nesse momento, sou um ótimo exemplo. Semana passada tive o osso do meu quadril substituído. Esse tipo de procedimento médico veio de pesquisa animal. E mais, se a sua tia está sendo tratada de câncer de mama, se suas crianças e animais estão imunizados por vacinas, se seu pai fez cirurgia do coração ou se você tem um joelho artificial, você deve tudo isso à pesquisa animal. Na próxima vez que seus leitores levarem os filhos ao pediatra para diagnosticar uma gripe, eles estarão utilizando produtos advindos de pesquisa animal. Mesma coisa para exames que vão da rubéola até a gravidez. Então, do que exatamente esses cientistas estão falando? Acredite, se houvesse uma forma mais fácil de conduzir os estudos, os cientistas envolvidos na pesquisa com animais seriam os primeiros a adotá-la.
O teste com animais é capaz de prever os efeitos de uma droga em um ser humano?
A rigor, seres
humanos não são modelos
perfeitos para eles próprios.
Homens não são modelos perfeitos
para mulheres, pessoas jovens
não o são para velhas, pessoas
que cresceram em São Paulo não
são modelos perfeitos para
pessoas que cresceram nos
Estados Unidos e vice-versa. Os
animais não são modelos
perfeitos para os seres humanos.
Mas o uso de animais é
indispensável para fazer avançar
as pesquisas. As pessoas e os
animais são diferentes e
utilizamos os animais para
entender melhor as leis
fundamentais da biologia de modo
que possamos desenvolver novas
drogas. Algumas pessoas dizem
que a cultura de células é uma
boa alternativa. E de onde veio
a cultura de células? Da
pesquisa animal.
Com sua enorme capacidade de
fazer cálculos e testar
alternativos, os computadores
não poderiam eliminar a
necessidade do uso de animais em
experiências?
Os computadores
só conseguem analisar dados que
lhes oferecemos, e esses dados
vêm dos animais. Os remédios vêm
de descobertas feitas em
laboratórios que usam animais e,
com elas, entendemos os
processos biológicos
fundamentais de determinado
procedimento. Não é possível
utilizar computadores para
conduzir esse tipo de prática,
ela precisa ser desenvolvida em
animais.
Por que não crer que a ciência,
capaz de tantos feitos
espetaculares, não é capaz de
avançar sem a pesquisa com
animais?
Eu adoraria que um dia não precisássemos mais conduzir experimentos sem utilizar animais. Creio que a maioria dos cientistas se sente da mesma forma. Se pudéssemos utilizar apenas um computador seria ótimo. Mas a verdade é que não é possível. A pesquisa é uma troca. Para aprender mais sobre os seres humanos realizamos experimentação animal - controlada por leis, que garantem que elas sejam feitas de modo a causar o menor sofrimento possível. Estudamos duro para entender quais são as necessidades dos bichos com os quais convivemos. Por exemplo, sabemos que os primatas são animais pensantes, curiosos. Por isso, proporcionamos à nossa colônia estímulo intelectual, realizando atividades que os mantém interessados. Os animais em nossas instalações recebem cuidado veterinário excelente. Eles se alimentam de comida excepcional e vivem muito mais do que no meio selvagem. Existem profissionais a postos 24 horas por dia. Essa visão de que a pesquisa animal é uma coisa monstruosa não é verdade. Poucas pessoas já visitaram laboratórios que acomodam esses animais e eu faço o convite para que os leitores tenham o trabalho de visitar algum deles.
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