A cada ano, mais de 100 bilhões de
animais são violentados. Sofrem maus-tratos na indústria do
entretenimento, onde são transformados em atração. Vivem em
condições cruéis para nos fornecer alimento, são mantidos em
cativeiros para servirem de cobaias. São cães e gatos, vacas e
galinhas, elefantes e golfinhos tratados como objeto.
Incorformadas com os abusos sofridos pelos animais, pessoas como
Tom Regan, professor de filosofia na Universidade da Carolina do
Norte, nos Estados Unidos, lutam para que os bichos tenham
direito à integridade física. “Os animais não são seres que
existem para nós, não estão no mundo para atender a qualquer
custo nossas necessidades e nos satisfazer”, diz Regan em seu
livro Jaulas Vazias.O ativista participará do 1º Congresso
Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano que ocorre em agosto,
em São Paulo.
Quando surgiu seu
interesse por essa causa?
Durante quase metade da minha vida, eu não tinha nenhuma
“consciência animal”, como costumo dizer.A não ser pelos animais
de companhia com os quais dividia minha vida, os outros bichos
eram como pedaços de madeira. Digo isso porque cheguei a
trabalhar como açougueiro, quando era mais novo, e como
carpinteiro. E para mim os animais eram coisas, como os pedaços
de madeira que usava na carpintaria. O que mudou minha vida foi
ler Gandhi. A partir de então, comecei a me opor à violência que
não pode ser justificada, e por isso fui contra a Guerra do
Vietnã. Gandhi me ajudou a ver que nossa cultura trava uma
guerra não declarada contra os outros animais todos os dias, nas
fábricas que os transformam em comida, em roupas, em
competidores, atletas, ferramentas. E a violência imposta a eles
simplesmente não pode ser justificada.
Mas os seres
humanos são diferentes dos animais. Como fica?
É verdade que muitos seres humanos são diferentes dos outros
animais de diversas formas. Por exemplo,muitos seres humanos são
capazes de ler história e ficção, responsabilizar-se por suas
ações e assim por diante. No entanto, nem todos os seres humanos
são capazes de fazer essas coisas. E por isso dizemos: “Bem,
então esses seres humanos não têm direitos, o que faz com que
sejamos livres para usá-los como simples meios para atingirmos
nossos fins”? É claro que não. Esses seres humanos têm os mesmos
direitos fundamentais que nós e no mesmo nível. Portanto, não
faz sentido falar de direitos no caso dos seres humanos e negar
esses mesmos direitos no caso de outros animais incapazes de
fazê-lo.Todos estamos no mundo, temos consciência do mundo e do
que nos acontece. Além disso, o que nos acontece tem importância
para nós porque faz diferença para a qualidade da nossa vida,
quer os outros se importem com isso ou não. Assim, desse modo
fundamental, esses seres humanos e aqueles animais são a mesma
coisa, são iguais. Como, então, podemos reivindicar com sensatez
direitos para nós e negar a eles esses direitos? Não podemos
fazer isso de forma sensata, o que não significa,obviamente, que
não possamos continuar a afirmar nossa singularidade por razões
outras além das sensatas.
Quando a
sociedade começou a achar essa questão relevante?
Desde que começamos a registrar a história há gente defendendo
os direitos dos animais. Encontramos a idéia de que nunca
deveríamos ferir ou aleijar outro animal à vontade, nem fazer
isso quando os matamos para comer, nos textos de Ovídio e
Plutarco, Sêneca e Platão, Pitágoras e Porfírio.O fato de
pouquíssimas pessoas saberem que esses personagens ilustres
estavam do lado dos direitos animais só serve para mostrar como
é tendencioso nosso sistema educacional.
Como você vê a
evolução dos direitos dos animais?
Sou realista. Não acho que o mundo vá adquirir a consciência
sobre isso da noite para o dia.Mas algumas transformações já
estão acontecendo. No Brasil, por exemplo, encontramos a
proibição da rinha de galos, ainda permitida em alguns estados
do meu país; a proibição no Rio de Janeiro de circos e outros
espetáculos que incluam atos com animais, ainda permitidos em
Raleigh, cidade americana onde moro; a eliminação da dissecação
e da vivissecção em escolas públicas, ainda comuns nos Estados
Unidos; e a proibição total de “diversões” com mamíferos
marinhos, que ainda vicejam em parques temáticos americanos,
como o Sea World, em San Diego.
Qual a maior
crueldade que os animais vêm sofrendo?
Em termos da pura contagem de corpos, a pecuária é de longe a
pior: cerca de 60 bilhões são massacrados todo ano. Se
compararmos seu número com o de touros mortos nas touradas, o
mal feito aos touros pode parecer menor. Mas os números não
dizem tudo. A maioria das pessoas que comem a carne de outros
animais aprendeu que precisa disso por razões nutricionais. Na
verdade, isso é falso. Não precisamos comer carne nem nenhum
produto animal (leite ou ovos, por exemplo) para ter o máximo de
saúde e vitalidade.Ainda assim, saúde e vitalidade são bens
importantes que as pessoas deveriam ser encorajadas a buscar.
Quando se trata da pura tortura que os touros têm de suportar em
nome do “esporte” e da “diversão”, bem, aí o caso é outro.Ninguém
pode ser tão doutrinado a ponto de acreditar que torturar um
touro seja necessário para algum bem humano importante. Há
muitos esportes e formas de diversão que não exigem que animais
sofram, ainda mais para a alegria de observadores humanos. O que
estou dizendo é que a maioria das pessoas que comem carne de
animais o fazem porque acham necessário, enquanto a maioria das
pessoas que gostam de ver touros destruídos age assim por
sadismo.O que é pior: fazer os animais sofrerem e morrerem por
ignorância ou por sadismo? Deixando os números de lado, com
certeza o último é pior que o primeiro.
O que podemos
fazer pelos animais?
Podemos começar mudando o jeito como vivemos a própria vida
prestando atenção na comida que colocamos no prato, por
exemplo.Outra coisa que podemos fazer é procurar descobrir quais
cosméticos e produtos foram testados em animais e quais não
foram. Quase todo mundo que dá esses passos não pára por aí.
Quanto mais a gente aprende sobre como os animais são
maltratados, mais se quer fazer alguma coisa para ajudá-los.
Isso leva, naturalmente, a nos juntarmos a outras pessoas.
Assim, podemos ter influência sobre as leis e a política
pública. Nenhuma pessoa isolada pôde acabar com os espetáculos
com mamíferos marinhos no Brasil. Esse foi o resultado de muita
gente trabalhando junto. Assim, há muitas maneiras de ver as
jaulas vazias.
Como é hoje a
difusão da música positiva?
No início, há 35 anos, poucas pessoas compreendiam o que eu
pregava, mas nos últimos anos a situação está mudando. Muitos
ainda acham, entretanto, que o termo “música positiva”serve
apenas para explicar as letras de algumas canções, e não é isso
que estou propondo. Positivo, em termos musicais, refere-se às
sensações induzidas pela música, sem palavras. A música tem uma
capacidade maravilhosa de elevação, ajuda a curar, expressa os
sentimentos do coração e ajuda a despertar nossa própria
espiritualidade.
Para saber mais
Livro:
• Jaulas Vazias, Tom Regan, editora Lugano
Veja também:
Veja informações sobre o 1º Congresso Vegetariano Brasileiro e
Latino-Americano e o site do evento que acontece em agosto em
São Paulo:
O
1º
Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano
acontecerá no Memorial da América Latina, de 4 a 8 de agosto de
2006, com palestrantes de todo o mundo. O evento também contará
com uma feira de produtos orgânicos e sem ingredientes de origem
animal, demonstrações culinárias com chefs nacionais e
internacionais e o 2.Veg Fashion, desfile com roupas,
acessórios, cintos, bolsas, calçados, cosméticos etc. fabricados
sem componentes de origem animal.