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ARTIGOS |
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Fonte: Revista Exame,
06/09/2007 |
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É brasileiro e não faz feio
Os produtores nacionais decidiram
apostar no foie gras, uma das mais sofisticadas iguarias do mundo - o
resultado pode ser conferido nos melhores restaurantes do país
Produtores
brasileiros passaram a última década tentando imitar algumas das jóias
da boa mesa francesa. Primeiro, foi o champanhe. Após anos aprimorando a
técnica de produção, os vinicultores da Serra Gaúcha conseguiram dar ao
espumante brasileiro um padrão de qualidade considerado razoável pelos
especialistas. Caminho semelhante seguiram os fabricantes de queijos
típicos franceses, como camembert e brie -- com resultado longe do
fenomenal. Uma cópia nacional, porém, atingiu recentemente padrões
próximos aos originais: o foie gras (fígado de pato ou ganso), tido como
uma das mais refinadas iguarias da culinária francesa. Muitas vezes sem
que o consumidor se dê conta, o foie gras brasileiro é servido em
praticamente todos os restaurantes de alto padrão do país. Entre os
chefs de cozinha que adotaram o produto nacional estão Alex Atala e o
francês Claude Troisgros, autor do prato que ilustra estas páginas, de
foie gras com caju. "Hoje, o exemplar brasileiro chega a ser melhor do
que o francês, pois resseca menos quando é cozido", diz Troisgros. "E,
se o prato é bom, ninguém quer saber de onde vem."
O foie gras é um dos alimentos mais
politicamente incorretos do planeta. O motivo é o método de produção,
considerado cruel. Funciona em duas etapas. Na primeira, a ave passa 90
dias em galpões, sendo alimentada normalmente. É nos 12 dias seguintes
que entra em cena a técnica de alimentação que causa repulsa aos
espíritos mais sensíveis. Uma quantidade crescente de milho cozido é
enfiada no animal por um funil, goela abaixo, com o objetivo de engordar
seu fígado. A porção diária começa com 200 gramas e chega a 1 quilo no
final do processo, quando o fígado atinge um tamanho dez vezes maior que
o normal. A revolta com o tratamento dispensado aos animais é tão grande
que a comercialização de foie gras foi proibida em algumas cidades, como
Chicago, nos Estados Unidos. Lá, já há um mercado paralelo de fígado de
ganso, numa bizarra repetição em pequena escala dos tempos da Lei Seca.
A multa para os gourmets que burlam a lei vai de 250 a 500 dólares. A
Califórnia já marcou data para o banimento (2012), e diversos outros
estados consideram seguir o mesmo caminho. A repressão vem causando um
novo fenômeno, a produção de cópias fajutas da iguaria. Alguns chefs
americanos tentam reproduzir o sabor e a textura do foie gras usando
ingredientes como fígado de frango, trufas e até mesmo tofu. A técnica
politicamente correta foi apelidada de faux gras, um trocadilho com a
palavra "faux", que significa falso em francês. A técnica, claro, é
considerada ridicule pelos chefs mais tradicionalistas.
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É justamente no momento em que o foie
gras provoca tanta comoção nos consumidores que a produção brasileira
atinge um nível aclamado pelos especialistas. O processo foi uma espécie
de epopéia de dois produtores, a catarinense Villa Germania e a paulista
Agrivert, que começaram a testar a produção de foie gras há dez anos. Em
meados da década de 90, quando ofereceram seu foie gras a donos de
restaurantes, os proprietários da Villa Germania ouviram que seu produto
estava abaixo da crítica. "Aquilo que se produzia aqui não podia sequer
ser chamado de foie gras, era um fígado sem textura ou cremosidade", diz
a chef Roberta Sudbrack. Eles decidiram, então, pelo óbvio: copiar os
métodos franceses. Foi na região de Périgord -- principal produtora do
foie gras francês -- que os brasileiros foram apresentados à sofisticada
produção de foie gras de qualidade.
Como numa fazenda de gado de corte, os
patos ideais para a produção de fígado são obtidos por meio do
cruzamento entre espécies. As matrizes foram importadas, mas, mesmo
assim, o produto não prestava, pois as crias eram extremamente
irregulares. Com investimento em técnicas de inseminação artificial, os
produtores conseguiram atingir um nível de qualidade e tamanho mais
previsível. "A evolução foi monstruosa", diz a chef Roberta. Um dos
grandes chamarizes do foie gras brasileiro é o preço. Hoje, custa
aproximadamente 40% menos que o francês (1 quilo sai por 210 reais, ante
355 reais do importado). A produção é pequena, uma média de 10 toneladas
anuais. Na França, chega a 20 000 toneladas por ano. A combinação entre
qualidade próxima à do original francês e preço mais razoável, porém,
tornou o foie gras brasileiro imbatível comercialmente. "Se no passado
tínhamos de pagar preços extorsivos pelos importados, atualmente nosso
foie gras está acima da média", afirma Alex Atala, dono do restaurante
paulistano D.O.M., considerado um dos melhores do país. Enquanto a moda
da proibição de foie gras não pega por aqui, o exemplar nacional tem
tudo para conquistar as boas mesas do país.
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