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Redação Vida
Vegetariana - direto do Canadá
07/04/2008 - 16h39 |
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Caça às focas no
Canadá é tema da coluna de Sérgio Augusto no Estado de São Paulo
FOTO: Reuters
Sérgio Augusto dedicou sua coluna do último domingo(06.04.2008), no
jornal Estado de São Paulo, inteiramente sobre a caça às focas no
Canadá. Parabéns pelas palavras, Sérgio!
Leia abaixo, na íntegra.
Sangue sobre a neve
Focas são só algumas das
vítimas da mais predadora criatura: o homem
Sérgio Augusto
Em meio ao badalado 68,
peço licença para lembrar um marco importante daquele ano. Um marco
jornalístico. Em 26 de março de 1968, o tablóide londrino Daily Mirror
chegou às bancas com sua primeira página inteiramente ocupada por uma
foto. Tirada num banco de gelo do Canadá, registrava o exato momento em
que um caçador acertava com um taco de beisebol a cabeça de um
bebê-foca, branco como a neve, os olhinhos negros arregalados pelo
terror. Em letras garrafais, a legenda: “O preço de um casaco de pele”.
Nas páginas internas, os detalhes excruciantes do massacre. Retirado à
força das tetas da mãe, o bebê-foca tivera a cabeça esmigalhada e seu
corpo esfolado à faca, na frente da mãe, cujos gritos de desespero
ecoaram em vão pela geleira. Como para montar um casaco de pele são
necessárias 40 foquinhas, 1 milhão delas passariam pela mesma provação
nas semanas seguintes. Terminada a chacina, ao longo dos bancos de gelo
encharcados de sangue e sujos de vísceras e carcaças, restavam apenas 1
milhão de mães-focas ensandecidas, expressando aos berros sua dor.
Foi grande o impacto causado por aquela histórica edição do Daily Mirror.
Mas as conseqüentes pressões sobre a indústria, o comércio e o consumo
de peles logo se esfumaram. O poder econômico, a ganância, a crueldade e
a frivolidade humanas berraram mais alto que as focas canadenses.
Insensíveis ao morticínio das focas (e também de chincilas, visons,
zibelinas e outras cobiçadas formosuras do reino animal), surdas ao
argumento de que só os esquimós deveriam poder sacrificar os animais de
seu hábitat e às evidências de que os casacos de pele sintética aquecem
melhor o nosso corpo, madames do mundo inteiro continuaram alimentando o
que alguém batizou, com muita propriedade, de “luxury porn”. Pois é de
fato pornográfica a fátua suntuosidade exibida por um casaco de pele
animal.
A agência de notícias Reuters divulgou, na quarta-feira, uma foto
parecida com aquela estampada há 40 anos no Daily Mirror. Local do
massacre: uma ilha de Cabo Breton, na província canadense da Nova Scotia.
O Ártico canadense é o paraíso dos caçadores de peles, cuja disposição
para o extermínio merecia um estudo antropológico e psicanalítico. Além,
é claro, de uma punição à altura das torturas que inflingem aos
mamíferos polares.
A essa altura, boa parte dos 275 mil bebês-focas “liberados” para o
abate pelo governo canadense já terá sido trucidada. Para aplacar a
fúria dos ambientalistas, um pau-mandado do premier Stephen Harper
“esclareceu” que a matança não teria impacto no meio ambiente. Ora,
igual ressalva poderia ser usada para aplacar a indignação suscitada por
um eventual assassinato do secretário do Meio Ambiente canadense - que,
aposto, jamais presenciou um massacre de focas ou de qualquer outro
animal vitimado pela perversão humana.
Das focas o homem não cobiça apenas a pele, mas também os órgãos
genitais, uma especialidade da África do Sul, onde milhares de
bebês-focas já foram mortos a pauladas na praia de Port Nolloth, no
oeste do país. Com que objetivo? Saciar a supersticiosa e patológica
demanda de afrodisíacos no Oriente, o maior mercado do que poderíamos
chamar de “impotence porn”, pois também é para lá que se exportam, com
igual finalidade, chifres de rinocerontes, testículos de macacos e
outros falsos elixires, contrabandeados por caçadores inescrupulosos.
Enquanto as foquinhas eram massacradas na Nova Scotia, chegava às
livrarias americanas um livro de cortar o coração: a biografia de Nim
Chimpsky. Outra vítima da insensatez humana. Escrita pela jornalista
Elizabeth Hess, Nim Chimpsky: The Chimp who Would Be Human, conta a
história de um chimpanzé induzido a se achar um ser humano. Seu calvário
começou nos anos 70, quando um professor da Universidade de Colúmbia,
Herbert Terrace, resolveu desafiar a tese do lingüista Noam Chomsky
segundo a qual os animais são fundamentalmente incapazes de entender a
linguagem dos humanos.
Raptado, ainda bebê, dos braços da mãe, Nim foi entregue aos cuidados do
casal LaFarge, que, durante 18 meses, o criou, em Manhattan, como a um
filho único: muito paparico, roupas finas, verão em East Hampton. Nesse
período, ele aprendeu a distinguir 125 palavras. Extremamente carinhoso,
quando via a mãe adotiva chorar, levava-lhe um lenço de papel. Embora
ricos, os pais adotivos de Nim não pensaram duas vezes quando os
subsídios de um fundo de pesquisa foram suspensos. E o chimpanzé foi
devolvido ao mundo animal. Nim, porém, não estava acostumado a ser um
primata. Sua reintrodução no convívio com outros chimpanzés foi
dilacerantemente traumática. Vítima inocente de uma experiência
científica irresponsável, ele quase enlouqueceu.
Não li o livro, apenas trechos, na internet, e um comentário na revista
eletrônica Salon, acompanhado de uma entrevista com a autora. Com
orgulho confesso que, ao saber que Nim, já velhinho, passava horas
contemplando, cheio de melancolia, uma foto de seus pais adotivos,
chorei feito gente grande - que é como sempre choro quando exposto a
qualquer forma de sofrimento imposto aos animais pela criatura mais
predadora e destrutiva sobre a face da Terra, o tal de Homo sapiens.
Quando leio, e leio muito, sobre o possível aniquilamento de várias
espécies animais, ou sobre as crueldades cometidas com cães, gatos,
coelhos e outros bichos pela indústria de cosméticos e até pela
automobilística (os laboratórios da GM testavam a segurança de seus
carros matando, inutilmente, milhares de cachorros, coelhos, porcos,
doninhas e camundongos), ou sobre o bárbaro confinamento a que vacas,
galinhas, coelhos e porcos são submetidos pela agroindústria
alimentícia, baixa em mim um sentimento de inexcedível repulsa pelos
meus semelhantes. Especialmente por aqueles boçais armados de porrete;
por aqueles inconscientes enfatiotados em casacos de pele; por aqueles
sádicos metidos em imaculados jalecos, sempre bolando “experiências”
para engordar seus fundos de pesquisa.
A propósito, este ano também se comemora o 30º aniversário da Declaração
Universal dos Direitos do Animal. Aprovada pela Unesco, ela dispõe que:
“1) Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos
direitos à existência; 2) O homem, como espécie animal, não pode
exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito e têm
obrigação de colocar os seus conhecimentos a serviço dos animais; 3) Se
a morte de um animal for necessária, deve ser instantânea, indolor e não
geradora de angústia”. Seguem-se mais 11 artigos. Todos rigorosamente
ignorados. E não apenas nas geleiras do Canadá.
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